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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Introdução ao livro "O essencial do Candomblé"








"Ninguém tem o direito de direcionar o amor de Deus. Deus ama incondicionalmente a todos. Os bons, os
maus, os gays, as lésbicas, os negros e os brancos." (Desmond Mpilo Tutu, Arcebispo Emérito da Igreja
Anglicana da África do Sul).
Agradeço aos Sagrados Orixás, aos Guias, Protetores, Guardiões, a tantos amigos deste e de outros Planos a
oportunidade de vivenciar o Candomblé e a Umbanda de maneira consciente, dialógica e fraterna, voltando os
olhos e o coração para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.
            Este trabalho visa a apresentar o Candomblé em sua unidade e diversidade sem a pretensão de
esgotar o tema ou de direcioná-lo para esta ou aquela prática específica de fundamento, liturgia, organização e
outros.
            Dedico este livro ao Caboclo Pena Branca, que me mostra o caminho, e às babás Paula, Marissol e
Vânia, que me ajudam a trilhá-lo; a todos os irmãos da Tenda de Umbanda Caboclo Pena Branca e Mãe
Nossa Senhora Aparecida; a Iya Senzaruban, dirigente do Ilê Iya Tunde (Candomblé Vegetariano), casa onde
saí Ogã da Oxum, minha mãe, minha Ialodê; a Mam´etu Yademaza e a Tata Kutalangô/Wilson Santos (Inzo Iya
Nkise Muxima Ndandalunda); ao Babalorixá Eduardo Gomes T´Osumare (IIe Omi Asé Afojidan e Comunidade
Lua Branca); ao Centro de Documentação, Cultura e Política Negra de Piracicaba; à Biblioteca Municipal de
Piracicaba; a Antônio Filogênio Júnior; a Sávio Gonçalves, irmão de Mucuiú, irmão de Saravá; a Mara Tozatto,
irmã de fé e de letras; a meus pais Ademir e Laís; à minha irmã Arianna.
            “Ibiti enia ko si ko si imale” (“Onde não há humanidade, não há divindade”).
            Na certeza de que, para bater cabeça (em todos os sentidos), é preciso ter uma, desejo aos leitores
muito Axé!
Dermes
(Ademir Barbosa Júnior)
NOVO LIVRO DE AUTOR PIRACICABANO
A Editora Universo dos Livros publica no mês de setembro “O Essencial do Candomblé”, do autor piracicabano Ademir Barbosa Júnior (Dermes). O livro aborda o Candomblé em seu histórico, Nações-tronco, Orixás, Voduns, Inquices, vestuário, símbolos, principais cerimônias e temas afins, dedicando capítulos específicos para outras religiões de matriz africana e para o chamado Candomblé Vegetariano. Dermes é também autor de “Curso Essencial de Umbanda” (Universo dos Livros) e “xirê” (Limão Doce).
Em Piracicaba, “O Essencial do Candomblé” terá duas noites de autógrafos, em comemoração à Semana da Consciência Negra: no dia 24 de novembro, às 20h, na Biblioteca Pública Ricardo Ferraz de Arruda Pinto, com diversas apresentações musicais, e no dia 26 de novembro, às 19h, no Espaço Cultural da Ema, em comemoração ao aniversário do Porto Maracatu.
Carreira
O autor tem 13 livros publicados, com destaque para “Memórias do Presidente”, premiado no 1o. Festival Universitário de Literatura e finalista (Categoria Poesia) no Projeto Nascente USP/1997, e “O Sapo Voador”, segundo colocado no IV Concurso Literário Prof. Nelson Abel de Almeida – Categoria Literatura Infantil, indicado ao Prêmio Jabuti 2002 (Categoria “ilustração”/cinco finalistas), selecionado para o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) 2003 e para o PNBE (Programa Nacional de Bibliotecas Escolares) 2006, com mais de 30.000 exemplares vendidos.
Dermes é também autor de 24 revistas especializadas, vendidas em todo o país e em Portugal, com temas que vão de Língua Portuguesa, Literatura e Redação a Terapias Holísticas e Biografias.
O Autor
Mestre em Reiki, tarólogo e numerólogo, Dermes foi confirmado Ogã no Ilê Iya Tunde (Itanhaém, SP), com a dijina de Tata Obasiré (lê-se "Obaxirê"), em virtude das brincadeiras e molecagens no Ilê (“Obasiré”: “o rei da brincadeira/festa”). Atualmente é umbandista, filho da Tenda de Umbanda Caboclo Pena Branca e Mãe Nossa Senhora Aparecida, em Piracicaba, SP. Terapeuta holístico, ex-seminarista salesiano, com vivência em casas espíritas, participa amorosamente do diálogo ecumênico e inter-religioso e mantém uma coluna sobre Espiritualidade no sítio http://mundoaruanda.com. Coordenador Cultural do “Projeto Tambores no Engenho”, desenvolvido pela Tenda de Umbanda Caboclo Pena Branca e Mãe Nossa Senhora Aparecida, responsável pela criação, pesquisa e encaminhamento do espetáculo “Águas da Oxum”, é idealizador e um dos coordenadores do Fórum Municipal das Religiões Afro-brasileiras de Piracicaba. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, onde também se graduou em Letras, acredita que a postura mais interessante na vida é a de aprendiz.

Ago





Agô é palavra de origem iorubana que significa tanto pedido de perdão como pedido de licença. Corresponde
 
mais ou menos ao nosso desculpe (pedido de perdão: Desculpe-me por algo; pedido de licença: Desculpe,
 
posso lhe falar um pouquinho?).
 
Aqui, AGO aparece como a sigla de três posturas esperadas numa Casa de Santo: Amor, Gratidão e Orgulho.
 
Vejamos:
 
AMOR – Onde existe amor (aos Orixás, aos dirigentes, aos filhos, aos irmãos), não viceja o medo, a angústia,
 
o temor. A compaixão, outro sinônimo de amor, leva à compreensão, à empatia, à humildade, e não à
 
humilhação.
 
GRATIDÃO – A gratidão nos conecta diretamente com a verdade interior. Todas as experiências são preciosas.
 
“Quando perder tudo, não perca a lição.”, sugere o Dalai Lama. Mesmo as vivências extremamente difíceis nos
 
ensinam muito. Compreender isso não representa masoquismo, e sim gratidão.
 
ORGULHO – A vaidade nos enfraquece, nos faz vivenciar um falso eu (Sou o mais dedicado da casa; as contas
 
das minhas guias são as mais bonitas do terreiro; ninguém canta como eu; os outros não sabem tanto de
 
doutrina como eu  etc.). Já o orgulho, quando não sintonizado com a vaidade, é sinônimo de coragem e
 
determinação (Carrego meus Orixás no peito; vivencio minha religião com a cabeça erguida, aceitando a todos
 
e sem humilhar os que tentam me humilhar etc.).
 
Portanto, quando pedir agô (como perdão, licença ou ambos), experimente também vivenciar e oferecer AGO.
 
Deixa a gira girar!

Cambone e a arte de ser gentil




Para os queridos Maria Das Neves, Francisco, Cida, Lilian, Maria Maia e Sílvia.

            Todos somos médiuns. Evidentemente, não de psicografia ou de incorporação, por exemplo. Mas todos somos canais de contato com outros planos, atraindo espíritos benfazejos e energias positivas, ou espíritos menos evoluídos e energias negativas. Tudo depende do canal, isto é, de nós mesmos.
            Num terreiro de Umbanda, o cambone (também conhecido como o cambono/a cambona) constitui-se numa das sustentações da gira, assim como os pontos cantados, os toques e outros elementos. Daí a importância de seu trabalho consciente, calcado no Orai e vigiai preconizado pelo Mestre Jesus. Alguns exercem a função temporariamente, pois em breve começarão a incorporar. Outros, os que não incorporam, são convidados a exercê-la durante todo o tempo em que permanecerem no terreiro.
            Para cambonear com mais eficiência e devoção, é necessário ser gentil. Com os Orixás, Guias e Guardiões certamente é mais fácil. Mas com os próprios médiuns da casa nem sempre, em especial com aqueles que costumam ditar ordens durante as giras, a despeito das orientações já recebidas pelos cambones dos pais e mães ou dos próprios Orixás, Guias e Guardiões. Por vezes, na ânsia de auxiliar (ou mostrar serviço...), irmãos menos esclarecidos desconcentram os cambones, até mesmo empurrando-os. Se o cambone perder a paciência, certamente baixará o padrão vibratório. Uma sugestão bem prática para esses casos é deixar para chamar depois da gira a atenção do irmão que atrapalhou. Quando isso não é possível, discretamente avisá-lo de que está atrapalhando.
            Para a assistência o cambone é o espelho da casa, pois distribui senhas, encaminha os atendimentos e se comporta com discrição durante os passes e as consultas. Veja-se a importância de receber amorosamente a todos, sem distinção. E também com firmeza (o que não exclui a amorosidade) para se evitar tumulto, barulho e outros que possam atrapalhar a gira.
            Durante os trabalhos, o cambone deve estar atento a tudo, ao gesto de um Guia o chamando, a alguma das crianças que possa ter ido ao banheiro sem ter avisado algum adulto, à porta do terreiro (se não há ninguém lá fora atrapalhando ou “vistoriando” veículos) etc. Enquanto percorre a casa com os olhos, certamente cantará pontos, baterá palmas, em colaboração com o coro/os Ogãs, uma vez que os demais médiuns estarão incorporados ou em desincorporação.
            As funções do cambone nos recordam que, em Espiritualidade, todo trabalho consciente e sincero é bem-vindo. Um terreiro sem um pai ou uma mãe consciente, caminhará com dificuldade. O mesmo pode-se dizer de um terreiro em que os cambones se deixem levar pelo orgulho, pela falsa modéstia, pela fofoca, pela indiscrição. Mestre Jesus lavou os pés dos discípulos, a nos lembrar que, em Espiritualidade, função (Babá, Ogã, Cambone etc.) é serviço, não distinção.
            O contato constante e direto com os Orixás, Guias, Guardiões (não importa!) é motivo de experiências amorosas, alegres e divertidas (embora, infelizmente, líderes religiosos nem sempre sejam bem-humorados, confundido seriedade com sisudez, a Espiritualidade amiga caminha em outro sentido). Lembro-me de uma médium que não levava para as giras os charutos pedidos por seu Caboclo, por seu Baiano etc., mas sim de outra qualidade. Como cambone, eu já lhe havia avisado, em particular. Numa gira, o Baiano e eu tentamos fazer o charuto “funcionar”. Depois de aceso, o Baiano me pediu para dar uma batidinha. Concentrado no charuto, dei umas batidinhas no charuto, ao que ele me disse “Não, aquela batidinha de beber!”. A cada gira, uma nova aventura...
*
            O termo cambone/cambono vem de Tata Cambono, o Ogã responsável, em terreiros bantos/Nação Angola, por dirigir a orquestra e puxar os cânticos. Aliás, na informalidade do vocabulário plural dos terreiros de Candomblé, já encontrei “Cambono” como o sinônimo “Angola” de Ogã, independentemente da função específica. Em minha casa de origem, o Ilê Iya Tundé, por exemplo, casa em que Ketu e Angola se mesclaram (a ialorixá vem do Ketu, mas há muitos anos, com o falecimento de seu babalorixá, virou para o Angola), onde se canta ora em “Angola”, ora em iorubá, ora em português, minha dijina (em iorubá) vem precedida de “Tata” (“Angola”): Tata Obasiré.
*

“Cambones, cambones meus/meus cambones/olha que Ogum vai ao ló.”
Gentileza abre portas e corações!
Deixa a gira girar!

Crianças e a Umbanda


A participação das crianças na Umbanda pode e deve ser bastante ativa. Além de elas se sentirem em casa em todas as atividades do terreiro, em especial nas giras, todos os Orixás e guias as tratam com carinho, respeito e deferência. E não podia ser diferente, uma vez que o Mestre Jesus pediu que sempre deixássemos chegar pertinho dEle as crianças.
            Estabelecer limites para as crianças não significa tolher sua liberdade. Se hoje estão numa casa de Umbanda e amanhã, já adultos, resolvem deixá-la, não há problema algum: levarão com elas a força dos Orixás, os ensinamentos éticos, a firmeza dos sacramentos recebidos e dos trabalhos de que tenham participado. Vale lembrar: o livre-arbítrio é um de nossos maiores dons, e as portas de uma casa de Umbanda estão sempre abertas, não apenas para entrar, mas também para sair quando a caminhada espiritual de cada um (ou mesmo outra razão) assim determinar.
            Para que as crianças se sintam ainda mais à vontade na casa, é importante combinar algumas atividades específicas com elas: dinâmicas de grupo, dramatizações, jogos e brincadeiras, música (incluindo toque) e outros. Recentemente, na Tenda de Umbanda Caboclo Pena Branca, em Piracicaba – SP, preparamos juntos (crianças, adolescentes, adultos e eu) uma apresentação para a Festa dos Baianos, que aconteceu no dia 20 de novembro deste ano. Foi o primeiro passo para um projeto cultural mais amplo que a casa começa a desenvolver.
Em linhas gerais, a homenagem ao Senhor do Bonfim (o mote da apresentação foi: Homenagear o Senhor do Bonfim é homenagear a Linha dos Baianos) contou com uma pequena entrada, em que os meninos cantaram “Ilha de Maré”, como se fosse numa Lavagem. Todos foram acolhidos pelo Seu Zé Pelintra, que estava em terra (um dos adolescentes estava caracterizado como Seu Zé). Em seguida, cantaram “Oni Saurê”, “Toda sexta-feira todo mundo é baiano” e o “Hino do Senhor do Bonfim”. Os adultos ficaram encantados, emocionados. Durante a festa, fitinhas do Senhor do Bonfim foram distribuídas aos médiuns e à assistência.
            Em 2011, além de implementarmos juntos (dirigentes espirituais, diretoria, voluntários e eu) o projeto cultural da casa e viabilizarmos a apresentação das crianças e dos adolescentes nas festas da terreiro, pretendemos também oferecer oficinas e workshops para irmãos de outros terreiros que desejem coordenar atividades semelhantes com os meninos de suas casas.
            Omi Ibejada! Que as crianças de lá e de cá nos ajudem sempre a viver a vida com mais leveza, alegria e esperança. Afinal, brincar é atividade que exige concentração, comprometimento, entrega.
            Deixa a gira girar!