domingo, 13 de novembro de 2011

Sublimação ou transcendência



Em diversos momentos da História, em várias tradições espirituais e/ou religiosas, o desejo foi considerado como inimigo da caminhada espiritual (refiro-me principalmente ao desejo sexual). Mesmo grandes mestres, que precisam ser compreendidos no contexto histórico-social em que encarnaram, enxergavam o corpo em si como um entrave à evolução espiritual, chegando a descurar da própria saúde/higiene e/ou a maltratar o corpo de formas ainda mais cruéis.
Neste milênio, cada vez mais o desejo é encarado também nas áreas da Espiritualidade e da Religião sob o viés holístico (equilíbrio entre corpo,
espírito e mente), de modo a se vivenciar o que é natural com... naturalidade.
Nesse contexto, a transcendência mostra-se mais saudável do que a sublimação.
De modo geral, sublimar significa colocar sob os pés ou sob o tapete o desejo latente, por vezes fingindo que não existe (se não existe, por que trancafiá-lo?). O maior problema dessa atitude é que o desejo negado/reprimido geralmente se manifesta de maneira ainda mais forte, sem freios (segundo Jung, tudo aquilo a que se resiste, persiste). Por outro lado, transcender significa ir além, ultrapassar o ponto do desejo, reconhecendo-o, vivenciando-o de com equilíbrio em vez de negá-lo.


Exemplo:
Numa gira, um médium nota uma mulher muito atraente na assistência.
Pensamento/atitude de sublimação: Não posso olhar para ela, vou me desconcentrar. Mas ela é tão bonita! Nossa, deve ser obsessão! Ai, meu Deus,
estou numa gira, eu não deveria estar protegido contra essas coisas?
Pensamento/atitude de transcendência: Nossa, que mulher linda! Bem, mas agora não é hora de paquerar, não é mesmo? Melhor eu me concentrar na gira.
O exemplo, claro, é uma simulação. Os pensamentos geralmente são instantâneos. A atitude no caso de sublimação é nenhuma, perdida numa luta,
muitas vezes angustiante. Já no caso de transcendência, não se negam as evidências (a mulher de fato é atraente), a consciência (atenção, foco, comando da situação) dá o tom de uma decisão e de uma atitude bem práticas: centrar-se e adequar-se ao momento, à gira.
Dois monges budistas celibatários chegaram à beira de um rio. Uma linda mulher pediu a um dos monges que a levasse nas costas para atravessar as águas, ao que ele assentiu com um sorriso. O outro monge ficou indignado: pelos votos rigorosos que fizeram, um monge jamais deveria tocar uma mulher! Que dirá uma mulher como aquela!
Feita a travessia, a mulher desceu das costas do monge, agradeceu e seguiu o seu caminho. Os monges fizeram o mesmo, contudo o monge indignado, cada vez mais perplexo, não se conteve e disse ao companheiro:
- Isto não pode ser! Vou contar ao nosso superior que você carregou uma mulher nos ombros!
O outro respondeu:
- Irmão, eu a deixei na margem do rio. Você a está carregando até agora...
Deixa a gira girar!

Dermes

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